sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008


Gozo e Dor

Se estou contente, querida,

Com esta imensa ternura

De que me enche o teu amor?

– Não. Ai não; falta-me a vida;

Sucumbe-me a alma à ventura:

O excesso do gozo é dor.


Dói-me alma, sim; e a tristeza

Vaga, inerte e sem motivo,

No coração me poisou.

Absorto em tua beleza,

Não sei se morro ou se vivo,

Porque a vida me parou.


É que não há ser bastante


Para este gozar sem fim

Que me inunda o coração.

Tremo dele, e delirante

Sinto que se exaure em mim

Ou a vida – ou a razão.



Voz e Aroma

A brisa vaga no prado,

Perfume nem voz não tem;

Quem canta é o ramo agitado,

O aroma é da flor que vem.


A mim, tornem-me essas flores


Que uma a uma vi murchar,

Restituam-me os verdores

Aos ramos que eu vi secar...


E em torrentes de harmonia


Minha alma se exalará,

Esta alma que muda e fria

Nem sabe se existe já.

DESTINO

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta --- > ---
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Alguns poemas do livro de Almeida Garret que estou lendo essa semana " FOLHAS CAÍDAS". É uma boa seleção de poemas que vale a pena ser lido, segundo o autor esses poemas "As Folhas Caídas dizem respeito a uma época de minha vida íntima e nada são pelo público nem para o público."
Contudo o poeta sentiu a necessidade de ver suas obras irmotalizadas, pois para ele : "Nos poetas, apenas o corpo é mortal, a poesia, não."

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